Coesão territorial: notas sobre o interior
O debate sobre o interior do país tende a oscilar entre duas simplificações: a de que está condenado, e a de que basta vontade política para o inverter. Nenhuma resiste ao exame dos dados, e ambas atrapalham a discussão sobre o que fazer.
O que a demografia diz e o que não diz
A perda de população no interior não é um fenómeno recente nem exclusivamente português. Acompanha a transição de uma economia agrícola para uma economia de serviços em toda a Europa do Sul, e começou décadas antes das políticas que hoje se responsabilizam por ela.
O que os números agregados escondem é a heterogeneidade. Há concelhos do interior com saldo migratório positivo, normalmente sedes de concelho com serviços consolidados, ao lado de outros em queda acelerada. Tratar o interior como um bloco leva a medidas uniformes para realidades que não são comparáveis.
Três leituras que os dados sustentam
- A distância ao serviço pesa mais do que a distância ao litoral. A decisão de ficar ou sair correlaciona menos com o afastamento geográfico do que com o tempo até uma urgência hospitalar, uma escola secundária ou um balcão de finanças.
- O emprego atrai, a habitação retém. Vários concelhos criaram postos de trabalho sem fixar população, porque não havia onde morar em condições. O parque habitacional devoluto e degradado é um travão subestimado.
- A conectividade digital deixou de ser diferenciadora. Com cobertura generalizada, deixou de explicar diferenças entre territórios — e portanto deixou de ser argumento suficiente de política pública.
O que falta medir
Boa parte da avaliação de programas de coesão continua a fazer-se por execução financeira: quanto foi gasto, em que prazo. É um indicador de processo, não de resultado. Sem medir efeitos sobre permanência, rendimento e acesso a serviços, não se distingue um programa que funcionou de um que apenas foi executado.
É uma lacuna metodológica, não ideológica, e resolve-se com desenho de avaliação desde o início — não com relatórios encomendados no fim.
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